Em julho de 2019, o CineMaterna fez uma pesquisa com seu público, mães de bebês de até dois anos. Mais de duas mil mães responderam nosso questionário de auto-preenchimento. Um dos dados da pesquisa, foi que 88% das pesquisadas mencionou ser casada ou estar em relacionamento estável, mas apenas 67% diz ter o apoio do pai do bebê. Além disso, pouco mais de um terço das mulheres afirma estar sozinha na maior parte do tempo.

Sabemos: não basta o pai estar em casa, precisa dividir os cuidados com o bebê. No puerpério, sim, é exclusividade da mãe amamentar (no peito) e tem horas que o bebê quer (exige, demanda) a mãe. Mas para um bebê pedir o pai, é necessário formar vínculo: acalentar, dar banho, passear, alimentar, enfim, estar presente. E ainda tem as atividades domésticas: desde a limpeza da casa até a alimentação, passando pelas compras e organização. Se o compartilhamento da vida familiar não for total, o resultado é a situação descrita por esta mãe, depoimento coletado na pesquisa do CineMaterna:

“Tenho sorte de poder contar com muita gente ao meu redor para dividir um pouco do trabalho e da carga de cobranças em relação aos cuidados com o bebê. Mas no fim das contas, todas as escolhas e pensamentos logísticos acabam recaindo sobre a mãe. Bem ela, que já se cobra o tempo inteirinho sobre o que fazer e o que não fazer com a cria, e como conciliar todo esse amor que sente pelo filho com todas as outras esferas da vida. Não é fácil. E o pai ainda não se coloca neste papel de responsável – não na minha experiência, ao menos – e não é cobrado por isso. Se ele ajuda aqui ou ali um dia ou outro, já é suficiente para ter boa imagem de pai.”

[não encontrei a autoria desta imagem, inspirada no poster de J. Howard Miller]

Isso é bastante comum: o pai troca uma fralda em público e recebe aplausos. A mãe está exaurida porque dormiu mal, gerenciou o bebê e todas as atividades domésticas, mas ninguém pergunta como ela está.

Resolvi escrever sobre isso porque chamam a atenção os tantos depoimentos sobre a (não) divisão da vida doméstica. Aplaudimos sociedades que dão mais licença-paternidade aos pais, mas esbarrei com a matéria do Japan Times (abaixo, em inglês) sobre o assunto no Japão: lá os homens podem tirar até um ano de licença (parcialmente remunerada) ao ter um filho, mas apenas 6% dos homens utiliza o benefício. Além da parcela ínfima dos que saem em licença, um terço das mulheres (destes maridos) afirmou que seus companheiros passam menos de duas horas por dia em atividades domésticas ou com o bebê.

Ou seja, apenas implementar uma licença-paternidade não é a solução dos problemas. Talvez seja só um primeiro passo. O maior desafio é mudar a sociedade e o pensamento de que atividades domésticas e criar um filho são tarefas femininas. Tenho tentado fazer minha parte: mãe de dois meninos, sempre que posso, passo a eles algumas atividades domésticas.

Uma mãe comentou que “maternidade é trabalho”. Construir uma paternidade também.

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