Por Natacha de Mendonça (@nahmendonca), mãe da Clarice

Esperança

O puerpério tem sido solitário. Mesmo com uma incrível rede de apoio, me vejo como responsável principal por uma vida pequena, frágil e novinha em folha. Eu sou tudo que ela tem. Meu cheiro, meu colo, meu peito são seus refúgios preferidos.
Junto com a bebê ganhei um instinto de proteção absurdo que me faz acordar ao menor suspiro desse pequeno ser, e puxa, eu gostava muito de dormir!

Esses dias tão intensos, em que buscava encontrar um pouco de mim na nova vida, eram aliviados pelas visitas. Cada pessoa que passava pela porta de casa me trazia um pouco do mundo, um pouco de renovo. Mesmo com os palpites, era bom ter com quem conversar ou até discordar, era bom ver as pessoas da vida antes da maternidade, era como perceber que ufa ainda sou eu, ainda são as minhas pessoas, todos apaixonados por essa pequena, mas ainda somos nós… Então jogaram uma quarentena no meu puerpério!

Sem visitas, a preocupação que antes era exclusiva com o bem estar da minha pequena agora se amplifica: O que vai acontecer com o mundo? O que será dos nossos pais, avós e irmãos? Será que teremos nossos trabalhos quando tudo passar?
De repente, percebo que a felicidade da maternidade estava também em dividir o crescimento da pequena com os outros, de ver os avós babarem, de ver os titios querendo pega-lá no colo. De ver que eu tinha dado continuidade a nossa família, que meus amigos ansiavam por vê-la, que esse pequeno pedaço de mim estava sendo tão amado por quem tanto amo, era como receber todo amor através do que direcionavam pra ela.

Não tê-los quebrando nossa rotina entristece e deixa nosso pequeno apartamento ainda menor. Estamos há 30 dias sem ver amigos e família. Nossa primeira Páscoa não teve uma celebração, não teve abraço, não teve o calor humano, nem a comida gostosa da vovó.

Então sinto um medo profundo que os meus amados peguem o vírus. Que a gente perca nossos empregos, ou pior: nossas vidas. Dá medo enfrentar tudo isso com uma vida tão nova e cheia de luz sob meus cuidados, o que vai sobrar pra ela depois disso tudo? O mundo sempre foi esquisito, mas eu estava ansiosa pra vê-la descobrir tudo com seus olhinhos atentos.

Ah os olhinhos, aaaaah seu sorriso banguela e desajeitado, que belo combustível de esperança tenho aqui.

Percebo que estou com medo, mas também tive quando soube que gerava esta pequena e aqui estou, completamente rendida e apaixonada.

Não sabemos o que nos aguarda após a quarentena, cabe a mim desejar um mundo melhor, mais empático, amoroso e justo para que esses olhinhos tão atentos possam ver coisas lindas quando voltarmos a sair de casa.

O mundo foi posto em quarentena, para talvez, assim como as puérperas, saia deste período ressignificado e mais forte!

Dizem que os olhos são janelas da alma, aqui os olhos dela tem sido a janela da minha esperança.

Insônia

Acordo às 4h30 com o coração disparado por conta de um pesadelo. Agoniada, fico olhando para o teto no escuro do quarto. Minutos depois, a pequena desperta muito sentida, como se tivesse saído do mesmo sonho que eu. Acolho seu choro, ficamos unidas no escuro. Ela faz cocô, mama e volta a dormir. Permaneço acordada com uma angústia no peito.

As horas vão passando e não consigo voltar a dormir. Cada minuto que passo acordada enquanto ela dorme, me causa ainda mais angústia. Não consigo deixar de pensar que, quando eu finalmente ceder ao cansaço ela estará desperta, cheia de energia e precisando de mim.

Naquele momento percebo que mãe não pode se dar ao luxo de ter insônia, ficar sonolenta, impaciente e cansada num dia que está começando.

Sono se tornou artigo de luxo no pós-parto. Cada pequeno cochilo que dou é restaurador. Eu, que antes da maternidade dormia por 12 horas seguidas, agora me vejo grata por duas ou três horas ininterruptas de sono. A maternidade me ensinou a dormir pouco e ficar bem mesmo assim.

Mas a pandemia trouxe uma carga emocional para a qual não estava preparada. Quando li sobre o puerpério, sabia dos palpites, do baby blues, do cansaço, do esforço pra não passar dias sem tirar o pijama, então, por mais difícil que estivesse sendo, ainda conseguia deitar a cabeça e descansar. Agora, as notícias do mundo externo me deixam ansiosa. Como as pessoas passaram pelas grandes guerras? 

A madrugada se tornou um dia ensolarado. Ao meu lado na cama, ela desperta sorrindo e balbuciando angus. Encosto meu rosto no seu e dou uma fungada profunda. Que cheiro maravilhoso, que preciosidade o cheirinho dos bebês. Ela sorri e segura meu dedo com a sua mão pequena: me sinto recebendo colo dela. É como se ela dissesse que vai ficar tudo bem. 

Sei que o dia será cansativo, mal dormi por quatro horas. Mas o toque, o cheiro, o sorriso, o olhar e os sons dela me conectam com algo sublime, porque minha filha vive. Posso crer no amanhã, ela se tornou a expressão divina na minha vida e me resgata nas horas de mais desespero. Que sorte a minha, que privilégio.

Exaustão 

Amamentei por tantas horas seguidas que começo a me questionar se ainda sou uma pessoa ou apenas o tetê da minha filha. Na minha pausa para o almoço, mesmo depois de horas mamando, ela quer mamar de novo. Mama, faz cocô. A cama está cheia de roupas recolhidas do varal pedindo para serem organizadas.

Olho à minha volta e sinto um pouco de agonia. Fico pensando no conselho mais recebido durante a gestação: “aproveite para dormir enquanto o bebê não nasceu”. Se eu pudesse me aconselhar naquela época, com a experiência que tenho agora, diria: “aproveite pra comer e saborear a sua comida, terminar aquele livro, organizar suas coisas, tomar um banho longo, passar esfoliante na pele, hidratar os cabelos e deitar no sofá despreocupadamente. Aproveite pra por uma música no último volume e dançar feito maluca, maratonar uma série, viver uma vida despreocupada e sem rotina. Aproveite pra por aquele brincão enorme, pintar seu livro de colorir e escrever no seu caderno”. 

Essas coisas me parecem mais difíceis nesse começo ou não achei um jeito de fazer algumas coisas ou simplesmente não tenho pique para elas. No começo, me esforçava pra não passar o dia de pijama. Agora estou há tantos dias trancada em casa que não parece ter muito sentido. Queria poder descer e tomar um sol com ela no parquinho do prédio, ou ver nossa família ou nossos amigos. 

Quando o dia começa a escurecer, tomamos banho juntas no chuveiro. Amo nosso contato pele com pele. Após o banho, deito pra amamentá-la e adormecemos juntas. Acordo algumas horas depois e percebo que mais um dia se passou. Essa simbiose inicial é intensa, mas no final, é recompensadora. Escrevo esse texto desejando que amanhã seja mais leve. 

Dia das Mães

Os dias que antecederam o domingo foram melancólicos. Estava arrasada de passar o dia das mães longe da minha família, estava sonhando com encontros. Todos os anos tento tornar esse dia especial para as mães que fizeram parte da minha infância e pela primeira vez eu estaria ao lado delas como mãe. Estava empolgada e já tinha feito planos desde antes da bebê nascer. 

Passar longe da minha mãe teve um peso, pois eu nunca a compreendi tanto quanto agora. Enxergo-a com mais gratidão e generosidade que nunca. As sombras dela são as minhas, me vejo nela e compreendo cada vez mais sua humanidade. Detesto admitir, mas em tão pouco tempo, vejo que a cada dia que passa, a frase “você só vai entender quando for mãe” é real. Quanta coisa já compreendo e fico imaginando mais um monte que ainda vou entender: parece que é assim que sai a fórmula de que “mãe é tudo igual”. 

O dia foi cansativo, como todos os outros, ninguém informou a bebezinha que neste domingo ela não precisava madrugar (acordou às 5h30, com a corda toda), mas me senti absolutamente privilegiada: primeiro, por ser mãe dela, depois, por estar dividindo a casa com uma pessoa que teve sensibilidade para tornar meu dia especial, mesmo que fosse só a gente em casa e totalmente fora do planejado. Passei o dia com olhos marejados pelas mensagens lindas e especiais. Recebi lembrancinhas (doces e mais doces; ainda bem que amamentar queima bastante caloria, rs), tenho amigos e familiares incríveis, e isso sim, é um grande presente. 

O que ficou é a gratidão. Mesmo longe de quem amo, é um privilégio poder vê-los por chamada de vídeo, que estejamos todos saudáveis, que não tenhamos perdido ninguém na pandemia e que, apesar do choro pela ausência, ela não é definitiva, pois em breve estaremos juntos. Sinto pelos que perderam alguém e ainda estiveram isolados.

Em respeito a este momento, tento ser grata pelo que tenho, que às vezes parece pouco, mas tenho certeza que é muito. Afinal, meu dia foi lindo, mesmo dentro destas condições. E o de vocês, foi especial ou só mais um dia dentro de casa?

Simbiose

Há quatro meses eu chegava em casa com uma bebê recém-nascida. Parece que foi ontem. Ainda lembro das sensações, da insegurança absurda, de checar a respiração da pequena a todo instante, das dores do início da amamentação, das dores do pós-parto,  que iam para além do corpo… Tinha algo no coração, um nó na garganta que me impedia de aproveitar as coisas como eu achava que deveria ser. A névoa dos primeiros dias foi se dissipando, fui me acostumando com a bebê, tentava fazer a palavra filha caber na minha boca sem soar esquisito. Essa bebê é minha mesmo? 

No dia em que ela nasceu, morreu alguma parte minha. Não sei direito dizer qual é e acho que isso gerou o vazio do começo. Agora, já não sinto mais falta. Meus dias foram ressignificados, ganhei coragem para realizar mais, pra me tornar melhor e ser um ótimo exemplo pra ela.

Dos primeiros dias, ficou a dispersão e o sentimentalismo. As inseguranças mudaram: mergulhei de cabeça na missão de cuidados. O isolamento da quarentena tornou este mergulho mais profundo, a simbiose mãe-bebê ainda mais intensa e agora, sinto medo de cortar esse novo cordão umbilical, não mais o físico, mas o mental. Como reencontro a minha versão que trabalha, que faz outras coisas que não seja em função da bebê? Será que todas as mães passam por isso? Nunca imaginei que eu seria a mãe com dificuldade de retornar a vida pós-bebê, e cá estou, com a cabeça a mil.

Para ajudar, o mundo está mudando, não se sabe se encontraremos mais do mesmo ao final disso tudo ou se teremos uma sociedade se redescobrindo. Como me preparo para o amanhã, se temos de viver um dia de cada vez?

Me sinto mais segura como mãe, mas não como alguém que precisará voltar pra sociedade em breve, em parte pela bebê, em parte pela pandemia. Tento ser positiva e pensar nas melhores opções, com todas as probabilidades. A maternidade pelo menos me trouxe algo muito especial: consigo olhar pro futuro com esperança de que dias melhores virão.

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