A redenção

O corpo da mulher foi feito para parir. Pariu ao longo dos séculos, nas situações mais adversas. Claro, havia complicações, que na ausência da tecnologia existente hoje, resultava em óbito, do bebê, da mãe ou de ambos.

A tecnologia chegou e não é novidade que atualmente o Brasil é um dos campeões de taxa de cesáreas. Não vou aprofundar aqui os motivos, nem estou defendendo uma ou outra forma de parto. Quero apenas contar um pouco da história da Gláucia, que teve sua primeira filha por uma cesárea que questiona. 

Muitas mulheres sentem-se frustradas por não terem conseguido parir. E Gláucia era uma delas. Pois é, ERA. Um pouco dos seus últimos dias de barriga do Rafael: 
Domingo da semana passada à noite, Alexandra, Camila, Gláucia e eu marcamos de jantar e nos despedirmos da barriga. Eis que a Gláucia não vai porque começou a sentir um incômodo, umas cólicas. Fica na expectativa de entrar em trabalho de parto. 

Segunda de manhã, acorda frustrada porque as cólicas pararam. Envia-nos um e-mail falando que não vai conseguir parir. Explicamos que ela está em pródromos (“falso trabalho de parto”), que é assim mesmo, o corpo está dando os primeiros sinais, mas que ainda pode levar um tempo.

Segunda à tarde, combinamos de trabalhar na casa dela, pois quero ver se a tranquilizo. Quando estou saindo de casa ela me diz que vai dormir um pouco. Como quero que descanse, não falo nada, mas já que estou na rua, sigo em frente, entro na casa dela quietinha (sua ajudante me deixa entrar) e fico trabalhando no escritório. Dali a um tempo, recebo um torpedo: “acordei”. Grito do escritório: “estou aqui” e quase a mato de susto.

Às 22h deste mesmo dia, envia um torpedo e diz que as cólicas voltaram, que está com vontade de comer doce. Seu marido está colocando Helena, sua filha mais velha, para dormir. Moro perto, por isso, digo que levarei um pedaço de bolo e ela diz que não precisa, é claro. Enquanto ela fica dizendo que não precisa, chego na casa dela com um pedaço de bolo e sorvete, que logo viram uma foto linda:
Terça de manhã, piadista, ela me envia um torpedo perguntando: “você está aqui em casa?”, referindo-se ao dia anterior. À tarde vai à consulta e é liberada pelo obstetra para tocar sua vida normalmente. Completa 40 semanas de gestação. À noite, brincamos pelo torpedo e envio para ela um trabalho de parto em ícones:

Na quarta, de volta ao batente, passamos o dia trabalhando fora de São Paulo. Falei para ela pegar o telefone da concessionária da estrada para ligarmos, casa ela entrasse em trabalho de parto. E ainda brincamos que o parto sairia de graça. 
Quinta trabalhou na sessão normalmente e na sexta, bateu de novo o desespero. Foi um chororô dizendo que não entraria em trabalho de parto, que seu corpo não sabia parir. E lá estávamos nós ajudando-a a compreender que ela era uma mulher tão comum e ordinária, que sim, ela iria parir. 
Sábado trabalhamos na sessão e almoçamos longamente. Rimos muito, brincamos, relaxamos. Parece que sabíamos que era a despedida da barriga. 
No domingo (ontem) à noite começou a sentir contrações e dor de verdade. Eu capotei cedo e não acompanhei, mas a Alexandra ficou de pseudo-doula. Desligaram-se à uma da manhã. 
Hoje, às 5h53 enviou um torpedo: “na maternidade com 7 cm”. Alexandra, Camila e eu passamos a manhã em polvorosa.
Rafael nasceu às 14h30, com 4 kg (!), de um parto normal redentor. Claro que não aguentamos e fomos vê-la e conhecer Rafael, lindo, bochechudo e rosado.

Rafael no colo de sua irmã, Helena

Gláucia, acho que nem precisamos lhe parabenizar. É muito bom ver uma mulher realizada e empoderada de sua força feminina.

Rafael, bem vindo à turma! Acostume-se: provavelmente você vai usar sua carteira de cinéfilo muito mais que sua certidão de nascimento.