Quase Oito

Da série “Maternidade Muda Tudo”, #CineMaternaEmpreendedora vai contar uma história de empreendedorismo impulsionado pela maternidade por quinzena. Inaugurando os relatos, Patricia Capella, da Quase Oito.

De advogada a editora de livros infantis, passando por me tornar escritora. Sem ser mãe do Francisco esse destino não teria acontecido. Os primeiros anos com Francisco foram de muito amor e medo de perdê-lo, ele nasceu com alergia a leite, um tema completamente desconhecido pra mim e para toda a família. E por isso os primeiros anos foram de muita tensão e acidentes indesejados com internações e risco de anafilaxia.

Cada vez mais fazer audiências distantes, estar no escritório ou me concentrar em problemas de clientes – que envolviam questões financeiras e de propriedades – nao faziam sentido. Por outro lado, brincar e ler com o Francisco eram momentos em que eu encontrava paz e equilíbrio. 

A cada ano dele, a alergista avisava que ele poderia se curar. Conforme ele crescia, a esperança diminuía, e a minha preocupação foi se transformando em ações no sentido de fazê-lo aceitar essa condição como diferente mas não limitante. Ele queria ir a casa de festas e fazer festas do pijama e lá ia a mãe do alérgico explicar para outras famílias como adaptar os lanches e receitas. 

Cheguei a participar de um grupo de mães que foram até a ANVISA brigar por uma rotulagem mais clara. Estava cansativo e Francisco mal queria ouvir falar da alergia. E os livros me ajudavam a falar com ele sobre esses sentimentos.

O número de horas trabalhadas no escritório ia só diminuindo até eu ter a oportunidade de parar. Eu que trabalhei desde os 16 anos, me vi em casa o dia inteiro tendo que ser do lar, enquanto ele ia pra creche. Então, resolvi fazer uma oficina de escrita criativa… onde nasceu a história “Cochi corre perigo?” Uma fábula sobre o Leão alérgico que, faminto, se perde a noite na floresta e não sabe o que pode comer… (olha o spoiler: quem o salva, no fim, é a Alergia).

E a partir daí comecei a buscar alternativas para publicar o livro do Cochi. Na creche, encontrei os pais de um outro Francisco, também com as suas alergias, Julie Pires e Marcelo Ribeiro, que criaram o projeto gráfico e começaram a ilustrar lindamente em aquarelas minha história. Nossas reuniões se desenrolaram entre as brincadeiras e jogos das crianças na sala de casa. Era o melhor trabalho do mundo! 

Das oficinas de escrita, passei à Pós-Graduação em Formação do escritor e com os amigos da turma lancei meu primeiro livro adulto de contos e poemas. Na editora desse livro conheci aquela que seria minha sócia em um novo empreendimento.

O mercado editorial de livros infantis pode ser cruel com quem está começando ou até com quem escreve sobre temas difíceis, e então eu decidi fazer meu próprio livro. E fui fazer outra pós-graduação, agora em projetos editoriais. 

Ao me sentir pronta pra lançar o Cochi abri uma empresa, ainda sozinha, com o apoio fundamental  do meu marido, claro!:  a Editora Quase Oito. Lembram-se daquela antiga editora de livros adultos? Pois é, por coincidência, ela saiu daquela editora e desse encontro viramos Quase Oito Editora e Livraria Ltda. 

Patricia Capella e sua família

Logo no primeiro ano, há quase quatro anos, lançamos alguns livros que faziam sentido em nossas vidas de mães, mas eu ainda sentia muitas dúvidas e medos em relação ao meu primeiro infantil. 

Como a mãe que vê o filho tomar forma, o dia em que segurei o Cochi nas mãos, impresso, colorido, com suas imperfeições e belezas, tão desejado desde sempre, tive a impressão de que nascia uma nova mãe. Uma mãe empreendedora, que daria orgulho ao meu filho Francisco e tornaria para ele o mundo mais inclusivo através dos livros.

A Quase Oito hoje faz livros de temas sobre saúde com o propósito de gerar inclusão e atende a autores iniciantes ou não para qualquer outro tema que faça sentido para as crianças. Já estou na terceira pós-graduação depois do Direito, agora em literatura para crianças e jovens, por onde eu acho que deveria ter começado. 

O fato é que empreender a partir da maternidade é uma roda que nunca parar de fazer, contar e ouvir histórias. A propósito, o CineMaterna foi um refúgio de histórias pra mim. ❤️