Sagrado Pano

Depoimento de Hellen Barbosa, da Sagrado Pano.

Sou Hellen, tenho 38 anos, paraense com o coração mineiro e mãe da mineira Frida, de 3 anos.

Comecei a empreender com 20 anos, mas ter me tornado mãe foi um divisor de águas para meu negócio. Por morar sozinha e ser autônoma, eu era uma mulher livre, não me preocupava com o futuro, vivia o hoje. Com a chegada da minha filha, isso se transformou.

Como boa tagarela que sou, vou lhe contar esta parte como se estivéssemos sentadas no boteco na véspera de feriado, tomando cerveja e conversando sobre a vida (ahhh, que saudades!).

A costura sempre esteve presente na vida das mulheres da minha família. Criei minha marca de produtos feitos com patchwork. Durante anos, me expressava através da minha marca, Joana Joaninha. Mas a gente se transforma, sentia que estava estagnada e que não conduzia de fato uma empresa. Junto a isso, uma crise pessoal: no primeiro casamento, desejei muito ter filhos, mas não rolou e nos divorciamos. 

Depois de alguns anos de solitude, vi que aquele sonho da maternidade não tinha morrido. Acabei me apaixonando por um homem que já era pai. Começamos namorar e vi a oportunidade de realizar meu desejo da maternidade através do seu filho, Gui. E para a nossa surpresa, depois de dois meses de namoro, descobri que estava grávida.

Amei gerar, me sentia o próprio sol. Pari Frida ao som de Elis Regina, um parto porreta com pessoas queridas por perto: mãe, irmã, tia e o pai da Frida, no hospital que desejei, o Sofia Feldman.

Pensou que eu ia falar que ‘foram felizes para sempre’? No puerpério, fiz de tudo: trabalhei com figurino, dei aula de costura e criei uma marca de roupas infantis, mas lá no fundo, eu não estava bem.

Acabei pedindo a separação no início de 2020. Tinha conseguido um trabalho que permitia uma grana fixa e acreditei que poderia bancar o aluguel, conciliando com minhas costuras.

Porém, a pandemia estourou no Brasil e fiquei sem trabalho. Me vi sozinha e com uma criança. Bateu o desespero: ou eu chorava ou me jogava na máquina de costura.

E assim minha marca mudou de nome e passou a se chamar ‘Sagrado Pano’. Vi que era hora de mudar: o antigo nome, meio infantil, não combinava mais com a mulher que me torno todos os dias. A maternidade me trouxe poderes mágicos, o tesão pela costura, pelas cores e me fez refletir o quanto é sagrado ser mãe, o quanto é sagrado gerar o pão de cada dia com o que costuro e me fez voltar a sonhar.

Hoje estou cheia de projetos para meu ateliê. Sigo resistindo na pandemia e sou grata por conseguir me manter com o trabalho das minhas mãos. Encontrei meu nicho e trabalho com colchas de retalhos.

Com toda essa transformação, me vi usando todos os retalhos possíveis, ganhando tecidos de amigos e assim, nasceu a colcha que faz mais sucesso no ateliê: a colcha ‘retalhos da vida’. Toda vez que faço esta colcha, sinto como se estivesse curando minhas dores e minhas aflições.

Consegui organizar e guiar com mais consciência meu negócio, cuidando melhor das contas e criando o tão desejado e planejado site.”